3.3.06

O Rei Carol, Nosso Senhor

[ continuação deste postal ]

Retido em Espanha, num exílio dourado, o rei Carol teria congeminado a eventualidade de se mudar para Portugal.Para tanto, o Ministro da Roménia em Lisboa avistara-se em quatro de Outubro de 1940 com o Embaixador Vianna, do MNE.Receoso e evasivo, o diplomata confiou ao papel a nota de conversa. Nesse fugidio apontamento, o Embaixador deu conta de que o representante romeno, que então recebera, havia-se encontrado em Barcelona com o monarca do seu país e por causa disso «desejaria pedir o apoio do Governo português a fim do rei poder vir para Portugal, visto achar-se retido, para não dizer detido, em Espanha a pedido do governo alemão, que recearia que de Portugal saísse para Inglaterra», razão pela qual Carol estaria «pronto a comprometer a sua palavra em que não sairia de Portugal» [AOS/CO/NE-1A,pt.18,fl. 316].Salazar leu o papel no dia 9 e o seu espírito geométrico e frio percebeu o essencial: o pedido da vinda de Carol para Lisboa tinha lógica e fundamento.A descrição que lhe servia de envelope tinha todos os ingredientes para poder ser aceite. Era um caso humano e um pedido moral.Nesse plano das realidades aparentes, duas eram as razões que o fundamentavam.Primeiro, porque Espanha era, no contexto, a pior de todas as soluções para permanência do rei.A estadia de Carol no país vizinho, tendo toda a comodidade possível para a situação, estava, de facto, agravada pela situação de liberdade vigiada, pois todos os seus movimentos eram espiados pela «Seguridad» e Portugal oferecia todo o ar apetecível de uma terra de liberdade de movimentos.Além disso, alegadamente a Portugal uniam-no laços ditos «sentimentais», que se não verificariam em relação a Madrid.E é aqui que surgem as sombras da suspeita. Salazar, rápido, intui e compreende.O pedido tinha de ser deixado aqui no rol dos esquecidos. Aceitar o monarca era bem pior do que agravar as tensões com os alemães, era reabrir o armário dos esqueletos da questão dinástica, que estava morta e enterrada, «entre naus e armaduras».Carol podia vir a por em crise já não a neutralidade internacional, mais até do que segurança interna mas, pior do que isso, ele atentava contra os próprios fundamentos do regime republicano, porque corporizava a eventualidade de restauração monárquica, interrompida com o falecimento de D. Manuel, II.Ele era o homem que podia ser rei.Para Salazar, para quem D. Manuel «falecera sem herdeiros nem sucessores», isso seria demasiado complexo. Carol era assim um problema a evitar.
A situação viria, entretanto, para o domínio público, através de um artigo que tinha todo o ar de haver sido plantado num jornal da periferia política, para o efeito de futura circularização da informação.Na sua edição de 07.11.41 o jornal de esquerda grego NEA publicara, de facto, um artigo curiosamente assinado de Paris com o seguinte texto [AOS/CO/NE-2 pt. 47, fl. 320] no qual se faziam como picantes revelações que «O ex rei da Roménia, Carlos, que há pouco tempo chegou a Lisboa com a sua mulher a ex senhora Lupesco (sic), pode em breve, se o quiser, candidatar-se ao trono de Portugal, que permanece vago desde a morte do rei D. Manuel II. Com efeito Carlos é e o ante neto da Rainha Maria de Portugal que pelo seu casamento com o príncipe alemão Fernando teve três filhos: Pedro V, que morreu quando da peste, Luís I, herdeiro de Pedro e uma filha D. Maria Antónia. Maria Antónia casou com Leopoldo de Hoenzollern e teve dele um filho, Fernando da Roménia, pai de Carlos. Dado que o ex rei Carlos é o descendente do ramo da dinastia portuguesa que permaneceu fiel à Constituição, ele tem, de acordo com certos historiadores mais direitos do que o actual pretende D. Duarte Nuno que é descendente do ramo que se opôs à Constituição e foi por isso expulso de Portugal. Por isso vários se perguntam em Lisboa se no fim Carlos irá reivindicar a Coroa portuguesa sobre a qual tem tantos direitos ou se, pelo contrário, preferirá ser restaurado no trono da Roménia, porque correm rumores de que Carlos está em vias de substituir o seu filho Miguel, que não goza da simpatia dos comunistas romenos».Era dossier arrumado.Só que o que se não queria que entrasse pela porta, apareceu-nos pela janela.Em 3 Março de 1941 ressoou o alarme: Carol fugira de Sevilha e surgira, inopinado em Portugal, na companhia da senhora Lupescu.
Ainda por cima a entrada no nosso país fizera-se por um local simbólico.
De facto, o percurso do rei Carol na sua precipitada fuga de Sevilha para Portugal faz um curioso itinerário, simbólico para os independentistas portugueses. Seguido à vista pela «Seguridad» espanhola, o monarca prevalece-se da potência do automóvel, que conduzia, e pretextando visitar a cidade de Llerena avança direito a estrada que de Santa Olalla por Fregenal de la Sierra, Gerez de los Caballeros e Almendral se dirige a Olivença. Perto da fronteira «o Rei e Madame Lupescu abandonaram o automóvel em que se tinham transportado e auxiliados pelas pessoas que os aguardavam, entre os quais o português Carlos Estebam Reynolds, que tem propriedades em Évora e Estremoz, internaram-se em Portugal, através de uma propriedade atravessada pelo Guadiana que naquele local serve de fronteira aos dois países» [AOS/CO/NE-1A, pt. 18, fls. 335/336]. Reynolds era um homem ligado ao «intelligence service» inglês.
A princípio, ninguém conseguia compreender.Em Sevilha a polícia secreta espanhola supostamente perdera-lhe o rasto.Os termos em que tudo se passara aumentavam a confusão reinante.Ainda por cima, as primeiras suspeitas estavam a ser «sopradas» contra a PVDE, a antecessora da PIDE, suposta ter feito a partida, para efeitos internos.A 5, pela tarde, autorizados a falar e amigos como sempre, os jornais de Madrid insinuavam que em Lisboa já se saberia da fuga.Agostinho Lourenço, o capitão de infantaria director da PVDE, desmultiplica-se em investigações com o refinado propósito de «sacudir água do capote».E, abre fogo em todos os azimutes.Primeiro demonstra, com pormenores, como e em que medida a segurança espanhola foi lentamente abrandada, em termos de a veloz máquina real poder galopar as planícies de Castela sem vigilância à vista de espécie alguma, Sua Majestade, exímio no acelerador.Depois atira a doer sobre os ingleses. Os indícios comprometiam.Perante isso, é todo um dossier que se abre agora.Se de facto não foram os ingleses quem exfiltraram o Rei Carol, bem se riram eles do sucedido.O Embaixador Sir Samuel Hoare, futuro Visconde Templewood, então chefe da diplomacia britânica em Madrid confiaria às suas memórias «Ambassador with a special mission, 1946»: «Serrano Suñer, depois de lhe prometer um refúgio seguro, internou-o em Sevilha, onde ele e a senhora Lupescu ficaram em confinanamento. O infeliz rei constantemente apelava para a minha pessoa, particularmente quando se tornou claro que os espanhóis pretendiam entregá-lo aos alemães. Havia pouco que eu pudesse fazer. De facto, tendo em vista o passado do rei, tinha bons motivos para ignorar o seu apelo. Mas ele era filho de um príncipe inglês e, além disso, fugia à Gestapo. Estas razões levaram-me a protestar contra a vigarice e desumanidade do Governo espanhol ao mantê-lo prisioneiro. Fiquei deliciado quando ele fugiu para Portugal».
O Rei Carol morreu em Portugal em 1953, os seus resto mortais foram transladados em 2003 para a sua Pátria de origem.

1 Comments:

Blogger Isabel Magalhães said...

Só posso agradecer por mais este esclarecimento sobre factos da nossa História.

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5.3.06  

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