21.8.05

Thomas Harris, do MI5 e o seu alter «Garbo»

Especulou-se sobre o desastre automóvel em que morreu. Protegeu «Kim» Philby e foi amigo Desmond Bristow. Gerindo o agente «Arabel», criou o célebre «Garbo». Pintor, fazia da espionagem também uma arte.

Estudei um pouco a sua vida. Eis o que julgo saber.


Falar de Tomás Harry é seguramente contar a história do agente catalão Juan Pujol Garcia, cuja carreira ele geriu. Só que o personagem é bem mais rico do que isso e resiste a muitas simplificações, não se livrando porém, como se fosse ele próprio também um objecto estético, à duplicidade das interpretações sobre a verdadeira natureza da sua vida. Ainda hoje, anos volvidos sobre a sua morte, as suspeitas sobre a lealdade ensombram a sua lenda, havendo quem, nas ligações pessoais comprometedoras que manteve, veja um elemento de ligação à causa soviética à qual foram fiéis muitos dos seus amigos de então.
Citando Anthony Blunt, o jornalista Chapman Pincher, no seu provocante livro «Their trade is treachery», publicado em 1981, imputa-lhe ideias marxistas mas ressalva que, segundo Blunt, ele não seria um agente russo, pelo menos tanto quanto lhe tinha sido dado observar. Mas já nas memórias que, sob o título «A Game of Moles», editou em 1993, Desmond Bristow citaria a sua própria mulher como partilhando da convicção de que tal ligação era real e demonstrada pelos factos.
Mas é na estética e na arte das sombras e da ambiguidade que se revêm os traços essenciais da sua personalidade multiforme, que Philby consideraria ser a de um espírito intuitivo brilhante.
Nascido em Londres em 1908, filho de pai britânico e de mãe espanhola, a sua vida ficaria duplamente hipotecada à sua ascendência. Do pai Lionel, judeu de origem, herdaria a apetência pela arte espanhola, do mobiliário à cerâmica, dos tapetes à joalharia. Da mãe Enriqueta - também o de uma das suas três irmãs - o gosto pela própria Espanha, na qual viveria alguns anos até à sua morte ocorrida em 1964 em circunstâncias trágicas e enigmáticas.
A galeria de arte ibérica que a família abriria em Conduit Street, ao ser frequentada por altos dignitários e por figuras da realeza, daria a todos a afluência de meios financeiros que os protegeria dos acasos da má fortuna.
Formado numa das mais importantes escolas de arte britânicas e então - a «Slade School of Art» -, completaria a sua formação em Roma, onde ganharia desenvolvimento o seu profundo conhecimento de Goya, de que se tornaria um dos mais reputados especialistas, e de El Greco.
Não desdenhando uma oportunidade comercial, aproveitaria o período da Guerra Civil espanhola para viajar até Espanha e comprar a preços reduzidos peças valiosas que os refugiados transaccionavam por aflição.
Datará dessa ocasião o seu conhecimento com «Kim» Philby, então colocado em Burgos, junto das tropas do Generalíssimo Franco, na qualidade de correspondente do jornal britânico «The Times».
Mas o que é certo é que a partir desse período está intrinsecamente ligado ao «círculo de Cambridge».
Em 1937 uma exposição que a família promove para contribuir para a Cruz Vermelha espanhola é inaugurada nas galerias do Courtlaud Institute pelo curador de quadros da Coroa, nada mais do que Anthony Blunt, «o quarto homem» do grupo que trairá a Grã Bretanha em favor da URSS.
Com o começo da Segunda Grande Guerra, Tomás e sua mulher são recrutados por outro elemento do mesmo grupo, Guy Burguess, respectivamente como cozinheiro e governanta da secção D do MI5, sendo mais tarde transferidos para o SOE, o serviço de operações especiais e clandestinas, por recomendação de mesmo Burguess.
As irmãs, Conchita, Enriqueta e Violeta, integrariam também os serviços do MI5, na secção BI (a).
Com o fim do SOE, o casal mantém-se na secção D, na altura em que Anthony Blunt desempenhava ali funções de assistência da direcção.
E é ele quem, em 1941, recomenda precisamente «Kim» Philby, primeiro para a secção de pessoal do MI6 e mais tarde como possível chefe da sub-secção ibérica da Secção V do MI6, o que vem a suceder sendo que ele próprio viria a chefiar a secção ibérica do MI5.
Como nas suas memórias («My five Cambridge Friends») recordaria Yuri Modin, o «controleiro» soviético de Philby (o agente «Stanley», para o KGB), ao sugerir o nome de Philby, cujos artigos do tempo da Guerra Civil espanhola eram então sobejamente conhecidos, Harris não esqueceria referir que o pai de «Kim» era amigo de Valentine Vivian, então na direcção da secção V, contribuindo, deste modo arguto, decisivamente para uma escolha formidável para a causa soviética.
E é em sua casa, nas festas que regularmente animam a vivência social que partilhava com os eleitos amigos, que se cruzam Philby, Blunt, Burguess e, por vezes, Victor Rotschild, Donald MacLean, «o terceiro homem», Richard Brooman-White, Tim Milne e Peter Wilson, enfim toda a nata do «intelligence service» britânico.
Desmond Bristow, que eu ainda conheci vivo, o homem que viria a chefiar a secção ibérica do MI6 encontraria na sua rica casa de então, no número 6 de Chesterfield Gardens, aquele que, anos mais tarde, surpreenderia o mundo ao fugir para Moscovo revelando assim a verdadeira natureza do seu papel: Philby.
E é, finalmente ele quem instiga Philby a escrever as suas memórias e assegura o contrato junto da editora André Deutch, avançando com três mil libras, a título de direitos autorais.
Colocado no MI5, coube a Tomás Harris ser o gestor do agente Juan Pujol Garcia.
Garcia havia sido localizado pelos britânicos quando, instalado na Costa do Estoril e por apetência pecuniária, habilitava os alemães com mensagens regulares acerca da situação social em Londres, que não conhecia por nunca lá ter ido e correndo o risco de ser descoberto por serem exíguos os seus conhecimentos acerca da vida britânica.
Fiados nos dados que este seu agente «Arabel» lhes passava, os homens da Abwehr em Lisboa retransmitiam o núcleo essencial das informações para Berlim sem darem conta que, em Bletchley Park, nos arredores de Londres, as suas mensagens cifradas estavam a ser descodificadas pelos britânicos.
Estes, localizado «Arabel» viriam a dar-se com o facto de o homem que tanto espanto lhes causava, pela ousadia da sua acção, ter contactado em Lisboa o adido naval americano o tenente Demorest, a quem ofereceu os seus serviços, facto que este de imediato transmitiu ao seu colega Benson, o adido naval da Embaixada britânica.
Transferido para Inglaterra, aonde chegaria em 25 de Abril, via Gibraltar, cognominado agora como «Garbo» - pelo seu estilo cinéfilo - seria entregue aos cuidados do pintor, que, pondo ao serviço do caso a sua prodigiosa imaginação, delineou toda uma rede de agentes fictícios que, supostamente recrutados por«Arabel», estariam a passar aos nazis informações fidedignas, mas que mais não eram, afinal, do que a dieta cuidadosamente tratada pelo «W Board» e pelo«XX Committee»,os organismos aliados incumbidos da decepção estratégica alemã.
Galardoado com uma OBE no final da Guerra, Harris receberia uma menção de apreço do próprio general Dwight Eisenhower, que lhe exprimiu o tributo de gratidão pelo contributo que, ao gerir o agente «Garbo», dera ao sucesso da causa aliada.
De facto a sua ligação a Garcia acabou por criar uma tal relação que as duas criaturas eram praticamente indissociáveis. No dizer de Bristow, Pujol era a pessoa e Harris o cérebro.
Nas suas memórias, escritas em parceria com «Nigel West» (alias o deputado britânico Rupert Alason), «Garbo» recorda a afectuosidade que Harris pusera no primeiro encontro entre os dois, ao abraçá-lo, mão por cima do ombro, com algo mais do que um gesto de protocolo: era um sinal de protecção que os uniria definitivamente.
Minado pelo mundo da duplicidade, a sua vivência com Garcia continua, terminada a Guerra, pela Venezuela, onde este procura, finalmente, paz.
Corre então que entre os dois surgiu um clandestino comércio de arte falsa, que passava, porém, como legítima, por obra e graça de certificados de autenticidade alegadamente subscritos pelo próprio Anthony Blunt. Di-lo no seu livro de memórias, Desmond Bristow, um amigo comum, que cita como fonte a mulher de Pujol Garcia.
Nas suas memórias «Garbo» nem uma palavra deixa que permita tal ilação. Recorda, sim, o último encontro com o artista que havia sido o gestor da sua vida, ocorrido em 1948 na ilha de Maiorca: desejoso de anomimato, pede-lhe então que ajude a criar o mito de que morrera.
O inglês cumpre a sua parte.
Fontes ligadas ao MI5 põe então em circulação que «Garbo» falecera em Angola, vítima de malária.
Num seu livro sobre as operações de decepção Sefton Delmer, refere exactamente a mesma ideia, para a reforçar.
Os últimos anos de Harris são finalmente vividos entre o território apetecível da Espanha, em Campo del Mar, perto de Palma de Maiorca e a casa de Londres, no número 1 de Logan Place.
Só que a turbulenta vivência familiar vai corroendo a sua vida interior.
Discussões frequentes e violentas com Hilda, sua mulher, multiplicam-se, tendo algumas como tema central e não se sabe a que propósito o próprio Philby.
Uma delas, em Janeiro de 1964 teria decorrido, estando ele ao volante do automóvel.
Irado, perderia o controlo, primeiro dos nervos e logo da viatura.
O desastre foi inevitável.
A morte também.
Tinha então cinquenta e cinco anos de idade.
A mulher morreria pouco depois.
A morte de Tomás Harris daria origem, durante bastantes anos a tese especulativas.
Na verdade, na sequência do acidente de viação, a polícia espanhola ao examinar a viatura nada de anormal encontrara na mecânica do mesmo a justificar o acidente. A mulher, que o acompanhava então, havia sido na altura igualmente incapaz de fornecer explicação plausível.
Correndo na altura a «caça às bruxas» em torno de saber quem seria o «quinto homem», na sequência da explosiva revelação da ligação soviética de Philby/Burguess/MacLean/ e Blunt, e sendo Harris um candidato natural a um interrogatório pelo MI5 sobre estes seus passados companheiros, ficou a pairar a dúvida sobre o que se havia passado.
Chapman Pincher no seu livro especula com a eventualidade de na origem da morte ter estado o próprio KGB. Richard Deacon não teve dúvidas em afirmar que Harris era precisamente uma das «toupeiras» soviéticas que haviam sido recrutadas no mundo da arte.
Peter Wright, o autor do célebre «Spycatcher», após entrevistar em Agosto de 1962 Flora Solomon, uma russa sionista emigrada, embora ressalvando que lhe encontrou a típica paranóia russa pela conspiração permanente, cita-a como compartilhando a ideia de que Harris fora eliminado pelo KGB para não fazer revelações demasiado indiscretas.
Foi preciso Desmond Bristow, amigo do casal, vir revelar, citando a viúva de Harris, a discussão tida no automóvel conduzido pelo malogrado pintor para que, finalmente, uma nova explicação viesse ao de cima.
Só que, aqueles que poderiam, eventualmente, dar luz ao que se passou naquele fatídico dia, já cá não estão para nos esclarecer se foi realmente assim que tudo se passou.
E, por causa disso, o desfecho final da história continuará em aberto, aberto a todas as interpretações.


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