22.8.05

Graham Greene: uma vida secreta

Image hosted by Photobucket.comEm 2 de Outubro de 2004 completaram-se cem anos sobre o nascimento de Graham Greene. O autor de «O nosso homem em Havana» foi escritor sobre temas de espionagem e entre Julho de 1941 e Maio de 1944 foi agente do MI6, na área da contra-espionagem. Portugal seria também o seu alvo. Estávamos em plena segunda guerra mundial. Para comemorar o acontecimento proferi uma conferência em Sintra, na Casa-Museu Ferreira de Castro, em Dezembro daquele ano.
De tal conferência, ainda inédita, publiquei um resumo na revista Visão. Eis o texto do respectivo artigo.

Um homem que ficcionou a própria vida, vivendo-a duplamente e recriando-a ao contá-la, eis no campo literário, Henry Graham Greene: um escritor que conviveu com a realidade dos serviços secretos e disso faz narrativa para os seus livros. Perfazem-se no próximo dia 2 de Outubro, cem anos que ele nasceu.
A sua vida foi controversa, as biografias que se lhe dedicaram também.
O professor americano Norman Sherry levou doze anos a escrever dois volumes de uma obra sobre ele, que projectara em três tomos. Ao ter entrado no segundo momento desse seu aturado trabalho, o biografado morreu-lhe. Estava-se em 1989. Graham Greene faleceu em Vevey, um lugar aprazível para se viver.
Michael Shelden seguiu-lhe os passos, tentando encontrar a verdadeira natureza desse personagem ambíguo, dissimulado, evasivo.
Entrado na «disciplinada e digna fileira dos mortos», Graham Greene é ainda hoje um homem e uma colecção de máscaras da sua pessoa.
O essencial da sua vida pública resume-o à escrita.
O grande público associa-o nomeadamente a guiões para filmes, até porque muitas das suas obras acabaram vertidas para cinema. E não foi só «O Americano Tranquilo», essa narrativa parcialmente auto-biográfica, que descreve parte das suas andanças pelo Vietname. A sétima arte acolheu também muitos outros dos seus trabalhos, alguns em adaptações. É o caso de «O Terceiro Homem», em que Orson Welles tem um desempenho notável, e tantos outros.
Escritor laureado, mas que nunca chegaria a receber o prémio Nobel da literatura, na obra de Greene o tema da espionagem tem, porém, uma incidência muito significativa. Livros como «O nosso homem em Havana», «O Factor Humano», «O Agente Confidencial», ou são histórias vividas no âmago dos serviços de informações ou narrativas para cuja construção o envolvimento de Greene nos serviços secretos foi determinante.
O mundo secreto é uma experiência importante na sua vida.
Greene trabalhou pouco na espionagem e escreveu muito sobre a espionagem.
Parte do seu percurso nos serviços secretos tem a ver com Portugal, durante a Segunda Guerra.

Escritor já consagrado, Graham Greene envolveu-se com os serviços secretos desde o verão de 1941, quando foi recrutado para trabalhar no SIS (MI6), sendo-lhe atribuído o número 59 200.
Na altura estava ligado ao jornalismo, como correspondente do «Spectator».
O seu primeiro posto foi em Freetown, a capital da Serra Leoa. Em princípio o seu destino seria a Libéria, mas o que escrevera no livro «Journey without maps» tornava-o «persona non grata» no país.
A função não era muito significativa, caracterizando-se mais como a de um polícia colonial. Michael Sheldon chamou-lhe «uma comédia de erros».
Cabia-lhe coordenar informações sobre o movimento marítimo no porto, tanto no que se refere a contrabando, como à passagem de passageiros suspeitos.
Os seus planos acabaram por nunca vingar. A ideia de criar um bordel ao serviço da contra-espionagem britânica, por exemplo, encalharia com a noção de que os franceses já faziam concorrência, por essa mesma forma.
Do que ali viveu recolheu matéria-prima humana para a sua escrita.
No mais, o seu dia a dia era de uma monotonia depressiva. Para a vencer, o espírito irrequieto de escritor fez a sua aparição. Greene descobriu que o livro de códigos para as mensagens cifradas continha grupos de cinco letras para as palavras de uso mais frequente. O paradoxo é que entre essas palavras estava «eunuco», uma menção aparentemente insólita para os serviços secretos. Greene não perdeu a oportunidade para ironizar e ao responder a um convite para uma festa de Natal do seu colega em Bathurst, codificou a mensagem «tal como o eunuco, eu não posso vir».
Terminada a missão africana, regressado a Inglaterra, em Fevereiro de 1943, o escritor integrou o «desk» português no sector ibérico da Secção V do MI6, os serviços incumbidos da contra-espionagem no estrangeiro.
Dirigia-o então Harold Russel («Kim») Philby, que escandalizaria o mundo ao fugir em 1963 para a União Soviética, revelando-se como «o terceiro homem» da rede de espiões pró-soviéticos. Curiosamente, «O Terceiro Homem» é um dos mais conhecidos livros de Greene, levado ao cinema pelo realizador Carol Reed.
A Secção V era uma pequena unidade, que primeiro viveu na localidade de St. Albans, no condado de Hertfordshire, e em Julho de 1943 se transferiria para Ryder Street, em Londres, precisamente para o local onde viria a ter sede a prestigiada revista «The Economist».
Concentrava-se ali o esforço de coordenação da contra-espionagem britânica no estrangeiro. O serviço estava organizado segundo critérios geográficos, conforme os países onde se situava a acção.
Um dos «desks» era o ibérico, incumbido de coordenação das estações do MI6 de Madrid, Lisboa, Gibraltar e Tânger.
A actuação contra a espionagem inimiga era particularmente relevante, sobretudo em Portugal.
Protegidos pela prática da política de «neutralidade colaborante» de Oliveira Salazar, os espiões do Eixo nazi fascista pululavam em Lisboa.
Uma das tarefas do «desk» era manter um ficheiro actualizado sobre essa rede, o «Purple Primer», articulando medidas ofensivas contra as suas actuações.
Apesar de mal falar português, Greene terá desempenhado um razoável papel. Disse-mo Charles de Salis, um agente do MI6 em Lisboa, quando o entrevistei há uns anos, na sua residência no sul de Inglaterra.
Só que, na verdade, aquilo que os arquivos registam, não há intervenções suas que se possam considerar decisivas. Philby, apesar de muito seu amigo, não se coibiu de dizer que Greene e Malcom Muggeridge, outro escritor que ele recrutou para o MI6 e que foi colocado em Lourenço Marques, apenas contribuíram para a boa disposição do serviço.
O que os seus biógrafos acolhem são acontecimentos ocorridos no seu tempo, como que a supor que ele seguramente não seria a eles alheios. Apenas isso.
É o caso de «Garbo», o catalão Juan Pujol Garcia, que a partir da linha do Estoril e desde 1941 mistificava os alemães vendendo-lhes falsa informação, e que acabaria por ser recrutado em 1942 pelos britânicos, cuja rede de agentes duplos (o XX Committee) serviu com larguíssimo sucesso, colaborando decisivamente na indução em erro das tropas de Hitler quanto ao local de desembarque no dia-D.
Greene nunca esteve envolvido directamente no caso de «Garbo», cujo recrutamento foi accionado em Lisboa por Eugene Risso-Gill, e cuja gestão cabia ao pintor e negociante de arte Thomas Harris; mas como confessou mais tarde no seu livro «Ways of Escape», a fascinante personagem deste serviu-lhe de base e fundamento para o seu romance «O Nosso Homem em Havana», a fantástica narrativa de Wormold que enganava os serviços secretos vendendo-lhes esquemas de aspiradores como se fossem rampas de lançamentos de mísseis e sacando proventos em nome de uma vasta rede de fictícios informadores.
Desmond Bristow, que estava na Secção V em Londres à data, e com quem falei na sua residência em Espanha, pouco antes do seu falecimento, omite qualquer menção a Greene neste caso.
Outro caso em que Greene aparece por vezes erroneamente referenciado é o de Otto John, que foi advogado da Lufthansa em Lisboa que, estando implicado, conjuntamente com o conde Stauffenberg, na conspiração para assassinar Adolph Hitler, se refugiou em Lisboa, de onde foi exfiltrado através da actuação de Rita Winsor com a insólita conivência do capitão Catela da PVDE, que, para esse efeito o prendeu no Aljube, protegendo-o dos agentes da Gestapo. Se bem que Rita Winsor, Graham Maingott e Cecil Gledhill fossem agentes locais do MI6 em Lisboa, a verdade Graham Greene nada teve a ver com o assunto porque à data já se havia demitido do MI6. Conforme John refere nas suas memórias («Twice Through The Lines»), quem ele contactou em Londres, muito antes da sua fuga foi Hugh Greene, o irmão mais novo do nosso homenageado, que fora correspondente do «Daily Telegraph» em Berlim, viria a colaborar com ele numa antologia de contos sobre os serviços secretos, que circularia com o apelativo título «The Spy's Bedside Book» e terminaria como director-geral da BBC.
No mais, a lenda sobre Greene e que Greene ajudou a fabricar, faz supor a sua intervenção em situações em que não esteve sequer envolvido.
Greene, por exemplo, nada terá tido a ver com a minuta do relatório sobre a actividade ostensiva de agentes do Eixo em Portugal que o embaixador britânico em Lisboa, à data, Sir Ronald Campbell, submeteu a Oliveira Salazar, o presidente do Conselho de Ministros, para o embaraçar e exigir medidas drásticas de retaliação. Isto demonstra-se porque o relatório, que está na Torre do Tombo, tem a data de 2 de Março de 1943 e, no entanto, nesse momento, Greene ainda não havia chegado à Secção V.
Greene veio a Portugal sucessivas vezes após a sua saída dos serviços secretos.
O Padre Leopoldo Durán, seu amigo e confidente, regista, numa biografia que escreveu sobre a sua pessoa, esses passeios. O escritor ficava hospedado na casa da sua amiga Maria Newall, que conhecia dos tempos da sua estadia no Quénia, e que vivia em Sintra, na Quinta da Piedade, na casa da duquesa do Cadaval. Numa dessas ocasiões Greene imagina a ideia, que não chega a realizar, de entrevistar o major Otelo Saraiva de Carvalho.
Em Sintra Greene vive um episódio risonho, ao tentar localizar a casa romântica onde vivera Lord Byron. Aborda, para o efeito, um casal transeunte e pergunta-lhes pelo local. «Esse senhor Byron ainda vive aqui?», perguntam eles, inocentes de todo quanto àquele expoente da cultura britânica. «Não, acho que já partiu há muito tempo», responde, com divertida ironia, o autor de «The End of the Affair».
Diminuto na sua intervenção nos serviços de informações, Graham Greene é uma figura notória essencialmente pela sua filosofia acerca do «establishement» da comunidade das informações.
Católico de origem, nada puritano de comportamento, radical politicamente, Greene deixou-se seduzir pelos ícones da esquerda. As suas simpatias por Cuba desencadearam a ira dos meios conservadores.
Neste contexto, a ideia que tem sobre os serviços secretos é altamente crítica. Essencialmente um oficial do MI6, agindo no exterior, na área da contra-espionagem, Greene considerava um insulto o imaginar-se que ele pudesse estar envolvido nos serviços de segurança do MI5, porque isso implicaria o ter de espiar os seus próprios concidadãos.
Mas foi em relação a «Kim» Philby, o trânsfuga mais odiado de toda a rede de infiltrados do KGB nos serviços secretos britânicos, que ele materializou o seu ressentimento.
Primeiro, prefaciou o livro de memórias que Philby editou a partir de Moscovo («My Silent War»), aproveitando o ensejo para lançar ali algumas frechas venenosas sobre os serviços que anteriormente servira, nomeadamente ao perguntar-se, relativizando a atitude de Philby, quem não teria traído alguma vez algo mais importante do que um país.
Depois, aceitou em 1968 visitar Philby na URSS, algo que os soviéticos haviam organizado com o propósito de recuperar a imagem pública daquele. Genrikh Borovik, que, por conta do KGB, se incumbira de tal operação, recorda a simpatia desse momento histórico.
Entre 1987 e 1988 três novas visitas teriam lugar à pátria dos sovietes.
Por tudo isto uma aura de suspeita rondaria a sua pessoa.
Que Greene pudesse funcionar como uma «hotline» entre os serviços secretos britânicos e o KGB é, no dizer sugestivo de Anthony Cave Brown, que escreveu a biografia de «C», Stewart Menzies, o patrão máximo do MI6 entre 1939 e 1952, «demasiado não plausível para ser plausível».
Escritor prestigiado, de formação católica, a fama de Greene não resistiu ao excesso de anti-americanismo que caracterizou muitas das suas atitudes e sobretudo o envolvimento com Philby. O FBI vigiou-o por causa disso.
Por isso, quando em 9 de Maio de 1944 resignou à sua função no MI6 pairou a dúvida sobre a verdadeira razão por que o fizera naquele momento. É que um mês depois seria o dia-D, o desembarque do exército aliado nas praias da Normandia.
De aí em diante distanciar-se-ia. Colocado primeiro no PWE, o «Political Warfare Executive», incumbido de funções no campo da propaganda em França, manter-se-ia disponível para agir episodicamente como «correspondente honorário». Hoje, a lenda suplanta o homem.

11 Comments:

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